Força de vontade e determinação para vencer

Por Luana Lazarini

É trabalhando na rua que eles conseguem o sustento financeiro. Seu instrumento de trabalho é simples: vassoura, pá e carrinho de lixo. Com um papel de suma importância para o bem estar da humanidade, eles fazem com que o lixo espalhado pela cidade não se acumule nas ruas e bueiros, evitando as enchentes e a proliferação de bichos e doenças.

Seja debaixo de sol ou chuva, a maratona desses profissionais em Três Rios começa cedo: às 5 horas da manhã. Profissionais essenciais para a manutenção de uma cidade limpa, estamos nos referindo aos garis, que tiveram seu dia comemorado nesta última quarta-feira, 16 de maio.

Figura popular em Três Rios, Luiz Cláudio Nogueira, conhecido como “Mumu”, trabalha como gari há seis anos. Ele conta que entrou nessa área por necessidade financeira, já que na época estava desempregado. Percorrendo cerca de seis quilômetros para a limpeza da Avenida Alberto Lavinas e da Rua XV de Novembro, Luiz Cláudio tem uma rotina de oito horas de trabalho de segunda a sábado. O salário é baixo: aproximadamente R$ 750,00.

“É um trabalho pesado. Nas ruas de Três Rios encontramos muita sujeira. Infelizmente, a maioria das pessoas não é conscientizada sobre a importância de não se jogar lixo nas ruas. Tem lugares que acabamos de limpar e alguém passa e joga resíduos no chão”, declara Luiz Cláudio

Preparo físico é fundamental para aqueles que trabalham como gari, afinal, a atividade requer profissionais que caminhem varrendo um longo trajeto da cidade. “Com o tempo, acabamos adquirindo esse preparo. No meu caso, faço a limpeza somente em áreas planas. Mas há garis que trabalham em subidas de morros e precisam de um esforço maior”, conta o gari.

O gari é uma profissão como outra qualquer, que deve ser respeitada e valorizada pela sociedade. Ser gari é trabalhar na prevenção de catástrofes, como as enchentes, e de epidemias transmitidas pelo contato com animais e com o lixo. Luiz Cláudio diz que hoje em dia o respeito pelo profissional gari é maior, mas nem sempre foi assim.

“Diante da importância do nosso trabalho, a população passou a ter outra visão sobre o gari. Mas ainda há aqueles que têm certo preconceito com essa profissão. Existe o pensamento de que o gari é a pessoa que não estudou, que não teve oportunidade na vida e teve que optar por ser varredor de rua como a última chance de emprego. Muitas vezes já ouvi mães falando para os filhos: “Se você não estudar, vai trabalhar varrendo rua”. Escutamos palavras que nos magoam muito”, afirma Luiz Cláudio.

Cada gari é responsável pela limpeza de uma área específica da cidade. Isso faz com que ele conheça um grande número de pessoas e crie diversos vínculos de amizade. Não é atoa que “Mumu” é uma figura tão popular na cidade de Três Rios. “Poucos me conhecem por Luiz Cláudio, a maioria das pessoas me chama de “Mumu”, revela o gari.

Mas como em qualquer profissão, o lado negativo de trabalhar como gari também existe. Além dos riscos de lidar diretamente com o lixo, há também outros perigos. “Na madrugada, muitas pessoas dirigem alcoolizadas. Já aconteceu de alguns garis de Três Rios serem vítimas de acidentes de trânsito”, conta Luiz Cláudio.

Diante dos riscos, há as recompensas e os fatos marcantes da trajetória de trabalho. Luiz Cláudio se lembra de um episódio que marcou a profissão. “Estávamos trabalhando na varreção da Avenida Alberto Lavinas, quando uma senhora ameaçou se jogar no Rio Paraíba do Sul. Conversamos com ela e conseguimos impedir o suicídio”, diz Luiz Cláudio, acrescentando que cada dia de trabalho de um gari é uma surpresa.

“Vemos muitas coisas acontecendo na cidade, principalmente durante a madrugada. Nos deparamos com frequentes situações desagradáveis, como a prostituição e o uso de drogas”, destaca.

Ser gari proporcionou a Luiz Cláudio o crescimento pessoal. “Nesses seis anos, evoluí muito como ser humano. Passei a ver e a entender o outro lado do profissional gari. Na grande maioria, são trabalhadores pais de família que precisam daquela renda para garantir o sustento familiar”, explica.

A vontade de vencer

Força de vontade e determinação fizeram com que Luiz Cláudio procurasse um novo caminho para vencer na vida. Aos 38 anos de idade, “Mumu” acumula as profissões de gari e fisioterapeuta.

Se tornar fisioterapeuta não foi uma tarefa fácil para o gari, que tem uma remuneração pequena e uma rotina cansativa de trabalho. Aluno de uma universidade privada de Três Rios, Luiz Cláudio via mais da metade do salário ir embora com o pagamento do curso superior. Além disso, precisava estudar durante a noite, depois de uma longa jornada limpando as ruas da cidade. Mas nada desanimou Luiz Cláudio e depois de muita luta, ele conquistou o tão sonhado diploma de fisioterapeuta.

A realização do sonho de se tornar um fisioterapeuta foi proporcionado pela profissão de gari. “Tive o apoio e o incentivo de familiares e amigos, mas graças ao salário da minha profissão pude cursar o ensino superior, comprar livros e garantir o sustento pessoal”. Luiz Cláudio conta que em certo momento pensou em desistir da faculdade, mas o desejo por melhores condições de vida sempre falou mais alto. “Colar grau e fazer o juramento como fisioterapeuta foi uma grande vitória”, emociona-se o gari.

E o sonho do gari não parou por aí. No final deste mês, Luiz Cláudio ingressará no curso de pós-graduação de Fisioterapia Aplicada à Traumato-Ortopedia, em uma universidade do Rio de Janeiro. “Ainda trabalho como gari, mas tenho o objetivo de crescer profissionalmente e conquistar uma colocação melhor no mercado de trabalho. Continuo estudando e prestando concursos públicos. Minha meta é conseguir um emprego na área da saúde e me estabilizar financeiramente”, garante.

Buscar conhecimento e qualificação profissional é fundamental para galgar patamares cada vez maiores no mundo atual. Para Luiz Cláudio, é preciso, sobretudo, ter força de vontade e abrir mão de muitas coisas para conquistar aquilo que se almeja. Mas se depender dele, todo o sacrifício valerá à pena.

Nossos votos são de que “Mumu” alcance seus objetivos e se torne um renomado fisioterapeuta do município de Três Rios, trabalhando em prol da saúde da comunidade trirriense.

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1 Comentário

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Uma resposta para “Força de vontade e determinação para vencer

  1. João Laio

    Excelente matéria! Parabéns!! Mumu nos incentiva a nunca desanimar diante das dificuldades!! Parabéns Mumu!! Parabéns Luana!!

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